Hoje, todos nós temos a consciência de que os tempos de não pensar em uma indústria da moda mais responsável ficaram para trás. Consumidores e investidores conscientes pressionam startups e grandes empresas do segmento a seguir a Agenda ESG (Environmental, Social and Governance).
Um movimento desta magnitude não pode ser ignorado. Afinal, a nossa indústria têxtil e de confecção nacional tiveram um faturamento que ultrapassou os R$ 194 bilhões em 2021, um setor gigante que tem a responsabilidade de criar uma moda mais sustentável.
Sabe a roupa que você está vestindo? Ou que você vende no seu e-commerce? Provavelmente percorreu quilômetros antes de ser sua, pois é importante saber que o vestuário tem uma longa cadeia produtiva.
A começar pelo fio: alguns são algodão, lã, linha e seda provêm da natureza, outros são sintéticos. O algodão, por exemplo, é plantado no campo, depois segue para a fiação, lavagem e tingimento. Na sequência, vai para a confecção (é nesta etapa que a roupa ganha forma). Por fim, segue para o mercado, responsável por vender para o consumidor final.
Este é um longo caminho repleto de conexões que podem causar um grande impacto no mercado brasileiro e também no planeta.
Um impacto direto é de que a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, ficando atrás apenas do setor petroquímico. Para você ter uma noção da grandiosidade do problema, ela é responsável por 20% de toda a produção de esgoto mundial e de 10% de todo carbono emitido.
O impacto vem em sua maioria das fibras sintéticas, como o poliéster e o nylon. Elas são feitas com matéria-prima não renovável e são termoplásticas. Isso tem sido muito nocivo ao meio ambiente, já que aumenta o efeito estufa, e vale ressaltar que esse tipo de tecido tem uma decomposição que leva centena de anos. Como é o caso do poliéster, que demora cerca de 400 anos para se decompor.
Por isso mesmo, quando o assunto é moda, se tornou uma obrigação da empresa, seja do b2b ou b2c, e do consumidor, em buscar soluções mais conscientes, seja com reciclagem ou na procura por tecidos sustentáveis, o objetivo é bem claro: gerar menos impacto para o meio ambiente.
Uma das fibras naturais mais usadas no mundo é o algodão convencional. São usadas, por exemplo, em malhas e jeans. Contudo, mesmo sendo uma fibra natural, pode ser prejudicial para o meio ambiente por conta da grande quantidade de água e agrotóxico usados.
Mas hoje, o mercado está mudando, houve uma redução de 90% na dose dos defensivos agrícolas em comparação com a década de 1960.
O algodão sustentável é uma alternativa em prol da sustentabilidade.
Em 2012 a Abrapa criou o programa “Algodão Brasileiro Responsável” (ABR) para incentivar uma produção mais sustentável de algodão no Brasil.
O ABR trata-se de uma certificação para os produtores brasileiros de algodão que atendam às diretrizes de sustentabilidade do Brasil e do mundo.
Outras fibras naturais estão se tornando tendência. Uma delas é a fibra de cânhamo, também conhecida como ‘hemp’. A fibra vem da cannabis. Além de ser produzida facilmente de forma orgânica, é biodegradável.
Para se ter uma noção, o mercado de cânhamo deve movimentar cerca de US$ 10,6 bilhões até 2025. Em 2019, faturou US$ 4,58 bilhões.
Sabemos que a palavra cannabis está associada à maconha. Mas as duas são diferentes, porque, o cânhamo possui menos de 0,3% de Tetrahidrocanabinol (THC), responsável pelos efeitos psicoativos, já a flor da maconha tem 30% a mais da substância em sua composição.
Temos como exemplo a empresa Vicunha Têxtil que trabalha com este tipo de tecido. A marca lançou no Brasil uma linha de jeans feitos com cânhamo e algodão, importado da China.
Hoje, é importante saber quem está por trás da criação, em toda a cadeia: quem planta, quem produz, quem vende, pois é preciso saber como é o modelo de trabalho dos envolvidos, afinal, a responsabilidade é de todos.
A solução encontrada para facilitar este controle, que é uma tendência que veio para ficar, é o rastreamento por meio da blockchain. Assim, é possível saber o caminho que o algodão, os tecidos e as roupas, certificados, percorreram.
Podemos citar como exemplo a C&A que vem utilizando a rastreabilidade para oferecer transparência para o consumidor.
Buscar alternativas menos prejudiciais ao meio ambiente faz com que as empresas sejam eco-friendly: quando a marca é amiga do meio ambiente. Uma empresa ecoeficiente é aquela que reduz os impactos ambientais nos sistemas de produção através de práticas de redução e otimização.
Na nossa opinião, seguir os pilares de ESG virou uma obrigação.
No caso da indústria têxtil e da moda, foi-se o tempo que as marcas que vendiam diretamente para o consumidor e não tinham a obrigação de conhecer e nem divulgar para a clientela, as práticas de trabalho ambientais, sociais e de governança de seus fornecedores e, claro, as suas próprias.
Hoje, mais conscientes, consumidores e investidores querem saber, de fato, como funciona toda a cadeia de produção. Quanto mais as empresas estiverem dentro dos fundamentos do ESG, maior será a probabilidade de atrair o olhar de investidores e de fidelizar seus clientes.
Sendo assim, a inovação e tecnologia que vão de tecido sustentável ao rastreamento do produto passam a ser ótimos aliados.
Com a globalização, fica muito mais fácil estar por dentro das inovações que estamos vivendo nos dias de hoje, podemos citar uma que nos últimos anos vem chamando a atenção do mundo da moda que você precisa conhecer: a tecnologia blockchain.
Para muitos essa tecnologia representa a segunda era da internet, mudando o eixo da web da informação para uma rede de geração de valor que atende a uma necessidade real.
Através da internet é possível conhecer e avaliar os resultados dos processos produtivos em termos econômicos, sociais e ambientais e o atendimento das expectativas das partes interessadas, com transparência e confiabilidade.
Muitos já vêm apostando que a tecnologia blockchain está provocando uma mudança na indústria da moda, pois todos vão poder conhecer as informações relativas à cadeia produtiva de uma peça.
Por exemplo, a LVMH está usando a tecnologia blockchain para rastreabilidade e prova de autenticidade dos seus produtos, num esforço para reduzir a falsificação.
E a Louis Vuitton já registrou um pedido de patente de uma blockchain para e-commerce no Brasil, desenhado para uso de toda a indústria de luxo, com um poderoso serviço de rastreamento.
A Renner também já está acompanhando a produção junto aos fornecedores, a qualidade e o cumprimento das leis trabalhistas.
Como estamos demonstrando, a tecnologia blockchain assegura a transparência e a rastreabilidade, impedindo assim a duplicidade dos produtos e das transações que envolvem toda a cadeia produtiva, desde a concepção até a venda de uma peça ao consumidor final, com acesso às mais diversas informações, tais como valores, insumos, fornecedores, bens, serviços, projetos e dados confidenciais, dentre outros.
O uso dessa tecnologia está no começo e claro que isso levará um tempo para atingir toda indústria da moda, com sua complexa cadeia produtiva e abrangência social e ambiental, mas vai resolver problemas como a falta de transparência das informações sobre o produto e a sua produção e a garantia de autenticidade, tudo isso com apenas um clique!
É sabido que o primeiro projeto que utilizou a tecnologia blockchain nas cadeias de fornecimento de moda foi realizado pela estilista Martine Jarlgaard, radicada em Londres, junto com a empreendedora e designer venezuelana Neliana Fuenmayor e em parceria com a empresa de desenvolvimento de software Provenance.
Nesse projeto, eles acompanharam a trajetória da produção de casacos de lã de alpaca criados pela estilista, rastreando as transações desde a obtenção da matéria prima, na tosa nas fazendas de criação dos animais até a chegada da peça na loja da estilista.
Foram mapeados a localização, o conteúdo e os tempos de cada etapa produtiva e, graças à tecnologia blockchain, todas essas informações estão disponíveis na etiqueta inteligente da peça, por meio do QR-Code.
A tecnologia blockchain trata-se do conjunto de registros muito precisos e fiéis das informações relativas às transações que acontecem no processo produtivo de um produto, criptografado, efetuado na rede. As informações de cada transação são registradas em um bloco, cada bloco vai sempre conter o histórico criptografado dos blocos anteriores mais o seu próprio conteúdo. Assim, com essas informações vai sendo gerada uma “impressão digital” do produto por bloco.
O conjunto desses blocos encadeados é a blockchain, “cadeia de blocos”.
Existem alguns termos que são importantes para entender bem essa tecnologia:
Hash ou uma função matemática, que gera um código com números e letras a partir de uma mensagem ou arquivo inserido pelo usuário-responsável pela transação;
Ledger ou livro-razão, que é o sistema de registro das transações em blocos compartilhados por toda a rede acessível a todos.
É fácil transformar qualquer informação, tais como números, palavras, detalhes das transações, informações dos produtos e até mesmo informações confidenciais em um hash da blockchain.
Como cada bloco tem um hash específico, sempre atrelado ao hash do bloco anterior, diferente, e é praticamente impossível a violação das informações por bloco.
Isso ocorre porque o registro da transação do bloco é disponibilizado na rede, e as respectivas informações do bloco são checadas em tempo real.
Se as informações do bloco forem validadas, esse registro é adicionado à cadeia, tornando-o permanente e inalterável, passando a integrar o ledger.
Por exemplo, na produção de uma calça numa fábrica no polo da moda de Goiânia, o conteúdo do bloco refere-se a todas as informações dessa etapa inseridas pelo fornecedor no sistema, com um hash.
Com essa calça pronta e embalada, ao ser transportada para o centro de distribuição, é criado um novo bloco, com um novo hash que contém o anterior, embora diferente, funcionando como uma espécie de selo de garantia.
Para o consumidor, essa impressão digital da blockchain, ao permitir o acesso a todas as informações sobre o produto por bloco, garante transparência e confiança na hora da compra.
Podemos perceber que são inúmeros os benefícios dessa tecnologia no mundo da moda.
Destacamos as seguintes:
Permite que os produtos sejam rastreados em toda cadeia produtiva, desde o início até chegar no consumidor final;
Garante a transparência, rapidez e eficiência dos processos;
Assegura a procedência e a qualidade dos insumos utilizados nas várias etapas de produção;
Prova a autenticidade dos produtos, por exemplo, podemos ter certeza de que um produto é “Made in U.S.A.” e ter acesso aos certificados de origem, evitando assim a falsificação;
Permite a comunicação personalizada com os consumidores, por meio das etiquetas inteligentes, mesmo depois da compra;
Permite conhecer questões relativas à responsabilidade social e ambiental de todos os envolvidos na cadeia produtiva, tais como as condições de trabalho, o cuidado com os animais e o meio ambiente.
Assim sendo, o uso da tecnologia blockchain permite ao consumidor saber, com 100% de certeza, o que está comprando, os insumos utilizados na produção, inclusive, onde está sendo depositado o lixo destas roupas, para que seja evitado o que está acontecendo no Deserto do Atacama e na periferia de Acra, capital de Gana, na África.